FOTOGRAFIA, temos aos montes

FOTOGRAFIA, temos aos montes

Comprei um livro de fotografia novo, só isso mesmo. Adeus.

Não, nada na minha via é simples quanto um adeus, tudo tem laços e interpendências. Interdependência: aprendi o significado desta palavra no Mestrado em Biodiversidade e ela me acompanha diuturnamente.

E foi minha colega de Mestrado que me fez sair de Ilhéus e partir para Salvador a fim de assistir o show da Marisa Monte na Fonte Nova, mesmo eu não gostando de ficar em pé em estádio de futebol, ainda assim, decidir ir.

Como nordestino só anda em “corda de caranguejo”, vem ela, com mais duas amigas , todas do Maranhão. Eu como boa baiana fui ciceronear, claro, a gente põe um tapete vermelho para o turista passar, mas não venha com tirania para cima de mim, nem de meu povo. Falaram para elas que comida baiana era ruim e iriam passar fome. Fui eu, levá-las em excelentes restaurantes e barzinhos de comidas baianas, com “S”, plurais. Estado grande, gastronomia imensa.

Passeio clássico no Pelourinho, Mercado Modelo e sua galeria, essa foi novidade e gostei deveras. Curadoria  de obras de arte e fotografia impecáveis. Estava lá Pierre Verger, adorado por mim e tantos outros, então tive tempo de abordar esse tema Fotografia e Arte na Bahia. Guarde essa frase: fotografar a Bahia.

Subimos o elevador Lacerda, tomamos sorvete de pudim na Cubana,  e o almoço foi no Palacete Tira Chapéu, que depois da restauração está impecável; almoço delicioso e um espumante baiano de Mucugê para celebrar o encontro, a vida e a amizade.

Eis que os portões da fonte Nova abririam 15:30, já era 15:00 e a gente ainda nem tinha comido sobremesa e nem tínhamos explorado as outras áreas do palacete.

Íamos atrasa , era fato, mas o show começava 18:30 e na minha cabeça de baiana, “dava tempo de sobra” , a galeria de arte ali no térreo tem peças interessantes e a doçaria com balcão convidativo para uma pessoa que é atraída por doce facilmente, no caso esta escritora que vos fala.

Eis que vejo, um LIVRO: CHAPADA DIAMANTINA, de capa azul brilhosa parecia uma quimera, intensa, encorpada, diagramação externa gerando impacto imediato. Quando entrei no Metropolitan em Nova York e vi Rembrandt , um sopro na alma , impacto. Quando entrei na Catedral de Toledo e vi El Greco, suspiro, arrepio no corpo, no Vaticano ver Caravaggio foi alucinante, ou seja, impacto. Guardem esses nomes, farão sentido no final desta crônica.

Vi o livro , pela capa e a última página com a frase:  Obrigada Chapada , a foto é a mão de um sertanejo segurando seu chapéu de couro, comprei sem pestanejar. A vendedora pegou rapidamente um exemplar lacrado com invólucro e uma sacola, tão bela que remete a capa de outro livro do mesmo autor. Perguntei sobre ele, de onde era, a vendedora prontamente, e, com muita gentileza mostrou-me a página da descrição do fotógrafo Kiko Silva de Salvador e seu Instagram.

Eu não tinha tempo, precisava correr, urgia mostrar a Praça Castro Alves, o Sulacap, o Hotel Fasano e Fera Palace e em 3 minutos falar um pouco dessa sociologia  urbana da cidade de Salvador, carnaval, história colonial e contemporânea, pelo olhar da filha de um professor universitário da disciplina  Geografia da Bahia. Uma responsabilidade e  dificuldade grandes, ambas imensas. Como a missão era impossível, tarde de muito sol, livro pesado na mão e história complexa, só nos restou 1 minuto de contemplação da paisagem urbana e partir para casa se arrumar para o show de Marisa Monte, desta cantora que sou fã desde tenra idade. Veredito para novas amigas: fotografem as belezas em suas mentes, e então voltem para desfrutar com calma, cada museu, cada igreja, as praias; segundo elas, aceitaram o conselho.

Senhores, eu não tenho condições psicológicas de ir para Show na Fonte Nova, a logística é dificultosa. E emocionalmente fiquei com aquela agonia para ela cantar “Segue o Seco”, que é das letras mais icônicas de Carlinhos Brown, a descrição da relevância da chuva para o povo do sertão, do aboio, dos vaqueiros, e não é que assim que ela terminou de cantar choveu muito, só naquele instante, e, depois a lua e as estrelas surgiram lindamente. Na Bahia, existem mistérios indecifráveis .  Vilarejo foi a música de abertura, que tem 20 anos de lançada e mostrando o quanto a palavra é imorrível e eterna, faz muito sucesso atualmente entre jovens e crianças  quanto permeia e ilustra milhares de vídeos em redes sociais. Descreve um vilarejo bucólico do Brasil profundo, que obviamente eu remeto à minha Chapada Diamantina. Final de Show, “Bem que se Quis” , música cantada na capela e depois o público sozinho, se despedindo com seu próprio coral, foi metalinguagem . Marisa já fora do palco, agora para mi, só restava jantar e meus pés pediam casa. Mercado Modelo, Pelourinho, Centro Histórico, Palacete, Almoço, Praça Castro Alves, indo e vindo do Imbuí para Barra, Centro , Dique, Fonte Nova, Rio Vermelho, Imbuí, o cansaço tomou-me.

Pela manhã surje a ressaca moral de não ter feito uma única foto do show. Não bebi, não fui ao banheiro, não me destraí, peguei celular apenas para  fazer 2 vídeos de 09 segundos . Meu olhar estava atento a cada gesto, cada acorde, cada palavra interpretada, cada cor escolhida na produção visual, cada arranjo da orquestra. Eu fotografei aquele show com a memória de quem ama Marisa e MPB.

O cansaço era grande e a cama fiel companheira na manhã de domingo, ao ir beber água, vi a sacola verde brilhosa e lembrei do livro e decidi folhear antes de levar para o Chalé no Povoado da Raposa, município de Iramaia,  onde tenho uma mini-coleção de livros de fotografia sobre Chapada Diamantina e sertão, autores como Ieda Marques, Rui Rezende, Rodrigo Galvão entre outros.

Folheando, noto uma diagramação bem peculiar, a página da direita com a foto e a página esquerda, anteposta com uma cor, monocromática e uma frase ou palavra simbólica, escrito a cidade onde foi capturada  O sono me tomava ainda mais, e eu,  seguia com o balé das páginas de forma despretensiosa.

As palavras , tão poucas, faziam todo sentido para mim que sou chapadeira e nascida em Seabra. Falar pouco é extremamente difícil, vejam o tamanho desta crônica… Ser sucinto é raro e complexo. Quando chegou na foto do Vaqueiro de Iramaia, meu coração acelerou, vejo os vaqueiros desde a infância e nas estradas de Iramaia por onde viajo tantos vezes na solitude, eles são marcantes, sempre os fotografo e converso.  Então ,a partir daquele momento o livro estava falando com a minha alma. Fui até o fim, percebi os padrões; as aulas de literatura do professor Luis Alberto em Feira de Santana, as aulas de artes e as horas e horas correndo museus treinaram meu olhar, que é singelo, mas foi o que senti.

Uma fotografia Barroca, escura, sombras que escondem beleza, sombras das águas que escondem mistérios e fé, sombras das rochas que escondem o tempo, sombras nos rostos que escondem suas complexidades. Ângulos desconcertantes, sem obviedade, ineditismo. O barroco do jogo de luz e sombra é real e presente.

 A dicotomia, por que a foto traz mistério e sombras, o texto na página anteposta e a cor traz a luz, a revelação, é preciso olhar mais ao lado, é preciso olhar para dentro de si e a palavra amuncia território e sentido. As sombras dramatizam a natureza, o cenário,  a sombra mostra onde está a lente do fotógrafo, direciona o olhar, bandeirolas e suas sombras, nada mais Volpi, nada mais barrocamente brasileiro. Sombras das águas negras dos nossos rios, movimento sobre as sombras das águas. A dualidade entre a foto sombreada pela magia da luz natural e a vibração da página monocromática. O realismo do rosto crus dos trabalhadores, vejo um sertão cruel de seca, mas farto de cultura e ancestralidade.

 Lembram dos pintores que citei? Foi impacto o que senti ao olhar o livro pela terceira vez, já em companhia de uma prima querida, amante da Chapada como eu, andante e caminhante,   narrei minhas percepções por quase uma hora , ela olhava admirada, e confirmava: é isso mesmo !

O musgo verde e amarelo nas paredões rochosos das cachoeiras de Ibicoara, é tudo que nosso povo brasileiro é, a bandeira oficial não é neutra, nem nosso olhar, a identidade colorida, os sentimentos plúmbeos. O céu estourado de branco, é proposital, muita luz, muita sombra, paradoxos barrocos. As duas páginas juntas tem trimendisionalidade: imagem, palavra, sombra.

A página da Fotografia é o Significado, a página da Cor é o Significante, uma é a evocação palavra, outra é a palavra, é um jogo de luz e sombras full time , é um desafio mental a cada nova foto, e, a cada movimento de minha mão, mais uma descoberta. O Livro é o Signo.

Temos montes de fotografias vazias nas redes sociais, mas temos Marisa Monte que canta Vilarejos bucólicos e Kiko que os fotografa com arte, dando sentido a um povo, a um coração baiano. Kiko Silva, a Chapada Diamantina lhe diz: Obrigada, devolvendo afeto aos montes através dessas palavras

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Ilhéus precisa renascer

Ode ao Mel de Cacau

Por que adoramos o bairro Recoleta em Buenos Aires

Por que adoramos o bairro Recoleta em Buenos Aires

Quando fomos para Buenos Aires fiz pesquisa com os amigos que lá sempre vão para estudar, um querido me disse: Fica na Recoleta, sem dúvida alguma e lá fomos nós. Alugamos pelo AirBnB e se você quiser ter desconto de 100 reais  em sua primeira estada clique AQUI. Super gostamos deste aplicativo, é seguro e tranquilo, e você fica na cidade como um local.

E ficamos hospedados na Recoleta, nos aventurando em suas ruas mega ultra arborizadas, um charme só!

E qual a atração que mais gostamos? Várias, além do Fuerza Bruta que contamos em outro post, das ruas charmosas e lojas finas, amei o CEMITÉRIO da Recoleta! Algumas amigas perguntaram assustadas: “Jura, que você foi sozinha no cemitério? Jura que você gostou, mas o que tem lá para se ver?”

Bem! gente curiosa, gosta de lugares curiosos. Quando fizemos o transfer de volta para Aeroporto de Ezeiza, que fica 1 hora de distância, a guia, que era baiana e de Canavieiras(ô coincidência) nos dizia que a maioria dos turistas declinam da visita ao Cemitério, acham estranho e não entram. Os que aceitam adoram a visita e agradecem muito por ela ter insistido.

AMO Arquitetura e Arte Cemiterial, então eu já fui para Buenos Aires com a certeza que queria ir lá. O Cemitério da Recoleta é incrível, imenso, MÍSTICO. Talvez eu tenha todo esse interesse por que tive a oportunidade de visitar o cemitério de Itabuna e Ilhéus no Sul da Bahia acompanhada do professor Doutor André Rosa Ribeiro da UESC-Universidade Estadual de santa Cruz que tem um brilhante trabalho sobre Arquitetura Cemiterial. Assim, com as aulas de iniciação do mestre, toda a visita fez muito sentido e o forte simbolismo foi movendo nossos passos,pela descoberta de mais e mais conhecimento.

Fomos na única visita guiada do dia que começa 11 horas na porta principal e é de graça, nos sábados, domingos e feriados  tem às 11 h e 15 horas , veja no site oficial. Apesar do frio que estava matando, foi muito bom, instrutivo, cultural. Foi uma aula de Arte, História, Religião, Política e Costumes. Sim, a morte também é uma representação clara de poder.

E por que tem gente que vai sozinho e não gosta?? Por que a maioria do “turistão” quer ver apenas o túmulo da Evita e não acha a menor graça, e vai embora. Claro, por que o mausoléu de sua família tem um padrão retilíneo, de mármore preto mais moderno, com as placas e só, nada mais. O babado é a história de como o corpo voltou para Argentina depois de ser roubado … e outras coisitas mais que você só sabemos por causa da visita guiada.

Os Mausoléus ou Bóvedas como chamam mais interessantes, são de pessoas e figuras desconhecidas para nós brasileiros. O Túmulo da Rufina Cambaceres é altamente mítico e representativo, mas só você indo lá para saber por que esta mulher que morreu DUAS VEZES está aparentemente abrindo ou fechando esta porta.

Outra coisita mega ultra interessante é que não existe coveiro. Calma, leitores, tem muitos funcionários, mas lá não se enterra ninguém, não existe cobrir caixão “para terra comer”. Os caixões são especiais e ficam expostos dentro das Tumbas, você vê alguns bem suntuosos, cobertos com mantos de Richelieu e outros bordados, plantinhas e tudo mais.

Como é muito, muito grande fui outro dia bem cedo.

Ruas do cemitério da Recoleta

Daí encontrei mais Vivos que mortos, olha que lindos. Biscoito é o gatito Cinza e Totó o amarelo. Biscoito foi meu guia às 07:30 da manhã, ele ia me conduzindo pelas ruas e avenidas, o céu estava cinza, as corujas cantavam, mas tinha a certeza que os gatinhos me protegiam de qualquer alma perdida por lá.

Gatinhos são moradores muito bem cuidados por todos os funcionários, eles tem nome, sobrenome e área. Totó , muito novo e forte quer ser o dono do pedaço, é cemitério também tem conflito de terras. Passei mais de 1 hora e nem consegui ver uma ala completa pois é uma Necrópole, uma grande cidade.

Para constar é um bairro muito caro, muito aristocrata e é mega chique morar ao lado do Cemitério. Bem em frente tem bares, restaurantes badalados, Centro Cultural onde você pode ver o Fuerza Bruta e um shopping. Se eu for de Novo em Buenos Aires? É visita certa, tem muito mais histórias e histórias para ver e ouvir. Sim, ouvir por que como cheguei cedo bati papo com um funcionário de 46 anos de serviço no Cemitério e foi Babado, cada histórica pitoresca, inclusive do “coveiro” que sonhava em ser enterrado lá, ele juntou dinheiro a vida toda, comprou um espaço, fez a placa da data de Aniversário e de Morte e ninguém entendia, por que estava tudo pronto e com data marcada. Pois no dia que ele marcou na placa tirou a própria vida e fnalmente realizou seu sonho de estar na Recoleta, assim como Getúlio, o argentino David Alleno. saiu da vida e entrou na história urbana de Buenos Aires. Tragédias épicas que só quem vê pode ter noção da GRANDIOSA MÍSTICA DAQUELE LOCAL.

São tantas obras de arte que ficamos tonta . Tanta riqueza artística e arquitetônica.

Quando o guia te chamar vá, quando for sozinha vá, compre um pequeno mapa do Cemitério vendido na portaria para ajudar na conservação e procure esses nomes famosos lá, desconhecidos aqui e se abra ao novo.

Leia mais sobre nossas andanças: Buenos Dias Buenos Aires

 Surpresa chamada Uruguai

Fiz as Pazes com o Rio de Janeiro

 

Artistas de Rua- Arte em Arame

Artistas de Rua- Arte em Arame

Ocupar a cidade, viver e conhecer suas ruas, ruelas, ver as pessoas, conversar, habitar. Nas andanças em Itabuna nos deparamos com este artista mineiro fazendo arte em arame, moldando peças, nomes e outras coisinhas mais. Seu nome é Carlos. Vejam a habilidade do artesão Carlos na miniatura desta moto Harley Davidson.

Contatos com o artista: (033)99123-8943